CRÔNICA: A VISTA DA JANELA DO QUARTO

NGC 3372

Eu observo as horas se perderem entre os móveis da sala. Em algum lugar você está indecisa. Será que realmente existe um caminho mais fácil para se aproximar? O frio procura te convencer o contrário, continue em casa, aprecie os prazeres sob a proteção do seu universo seguro, mas você encontra as chaves do carro, confere os pequenos mas importantes detalhes no espelho pela milésima vez, e deixa tudo para trás, sem se despedir.

Estou em casa, enfurecido pelo contínuo fluxo de ar graças as janelas entreabertas. O inverno me faz companhia e eu não tenho certeza se você vai estar aqui para me aquecer. Desvio dos copos, desvio dos cigarros, desvio das promessas, desvio da espera e me entrego à cama sem posicionar as cortinas, eu gosto da vista, eu gosto da intensa mistura de cores, luzes, vida.

O interfone toca, mas você se perdeu nos corredores do prédio mais uma vez. Sequer tem a clara lembrança sobre onde estacionou o carro. Você tropeça ao entrar, você reclama do frio, você me beija como se o fim estivesse próximo, você mergulha intensamente no beijo e me convida, e as horas se perdem entre os móveis da sala.

Você ri alto, você me faz de cama, você me abraça até onde não consegue alcançar. Você me observa com um brilho absurdo no olhar, e eu fico em silêncio, sem exatamente saber se devo me preocupar.

E o mundo sabe que existe um abismo entre nós. Um universo, um novo idioma. Uma constante incoerência na história, onde os seus carros se acumulam em uma garagem ampla, enquanto eu continuo indeciso sobre qual bicicleta comprar. Você já conquistou dois terços do universo, enquanto eu sequer descobri o que me reserva nas ruas do meu bairro. Mas quem está preocupado com isso, quando no fim, o abrigo que você deseja está nos meus braços?

Você se encontra, escolhe o seu lado favorito da cama, me abraça forte, pensa em milhões de palavras mas não diz nada. Me beija e adormece em segundos. Eu sinto a sua respiração em um novo ritmo, eu me aproximo para sussurrar que talvez eu esteja me apaixonando, e nada está conforme os meus planos, mas tudo bem, as cortinas continuam abertas e a vista da janela do quarto é ótima ao seu lado.

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About Ghilardi

Crítico ácido, um ruminante de peso. Definitivamente carne de terceira. Escritor. Músico. Fotógrafo ordinário.

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